Do circuito fechado de televisão ao vídeo monitoramento

Numa visão rápida temos a ligeira impressão que ambos os assuntos tratam da mesma matéria. A princípio até poderia se aventar esta vaga possibilidade, porém hoje podemos perceber que são temas muito distintos.

Operadores participam do vídeo monitoramento do evento promovido pela Fifa
durante Sorteio Preliminar da Copa do Mundo da Fifa Brasil 2014 –
(RJ, 30/07/11)

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Há algum tempo atrás, no século XX, período de muitos avanços científicos e tecnológicos significativos, o mundo globalizado se transformou numa espécie de Reality Show (Big Brother), onde pessoas anônimas tornaram-se protagonistas, estrelas por um dia e/ou temporada. Pessoas comuns que com suas câmeras digitais e, posteriormente, seus aparelhos de telefones celulares passaram a registrar os momentos de lazer e confraternizações familiares e divulgavam para o mundo.

Com o tempo, o velho celular – objeto de desejo no século XX, popularizado no século XXI – cedeu espaço à evolução para o iphone e atualmente para o ipad, tecnologia que agrega os conceitos de telefonia, aliados à navegação na Internet e os recursos de uma câmera digital, não fazendo somente fotografias estáticas, mas também pequenos filmes caseiros aglutinando som e imagens em movimento.

Mas quando falávamos de “Circuito Fechado de Televisão – CFTV”, ainda no século XX, imediatamente éramos remetidos aos filmes do gênero espionagem e contra espionagem (exemplos: 007 – James Bond e Missão Impossível), glamour que não durou muito tempo, pois o real serviço oferecido pelo sistema era monótono e não atendia o anseio daqueles que lançavam mão da tecnologia.

Os primeiros equipamentos montados no Brasil para atender a demanda comercial de segurança, além de deselegantes eram pouco funcionais. Suas estruturas, na maioria das vezes, eram montadas a partir de monitores de televisão amontoados em uma sala ou alocados em portarias sob os olhares de porteiros, auxiliares ou mesmo vigilantes sem preparação para o exercício da nova função.

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Desafios

A falta de treinamento dos profissionais e o total desconhecimento da matéria faziam com que muitos detalhes passassem despercebidos do olhar dos operadores. A deficiência do equipamento ora adaptado, ora experimental (dificuldade na escolha de câmeras ideais, importação de equipamentos de gravação eficiente e instalações adequadas de alocação), também causou muito embaraço. O constrangimento ilegal (invasão de privacidade) pesou muito nos primeiros passos do CFTV, mas a tecnologia voltada para desenvolvimento deste seguimento de segurança avançou muito, aproveitando o grande “bug do milênio” anunciado pelas mentes pensantes ligadas à informática, o que fez com que as pesquisas apontassem para um caminho bastante promissor e satisfatório.

Com o crescente avanço da tecnologia, os fabricantes de equipamentos de vigilância eletrônica se viram na obrigação de modernizar e/ou otimizar seus produtos. Era chegado o momento de introduzir no mercado equipamentos mais portáteis – que ocupassem menos espaço físico e que fossem o mais automático possível. O conceito de CFTV tomou proporção de um acessório que praticamente trabalhava por si mesmo, porém não podia descartar a presença de um operador, que por mais que se esforçasse ainda não conseguia absorver em toda sua essência a real utilidade e poder do equipamento.

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A necessidade em profissionalizar o operador

Nunca se ouviu falar ou mesmo aventar à idéia de formar profissionais com o perfil direcionado para atuar com eficiência nesta atividade. Com isso, supermercados, lojas de departamentos, shoppings, indústrias e condomínios de luxo utilizavam o CFTV apenas para armazenar as imagens em DVR’s (equipamentos usados para armazenar imagens obtidas a partir de uma câmera analógica de vigilância), o que nada tinha haver com o conceito proposto pelo atual modelo de vídeo monitoramento.

O século XXI chegou com suas inovações e trouxe para o campo da vigilância eletrônica as câmeras tipo: PTZ (PAN, TILT, ZUUM), equipamento que possuía motores de ponto, mas que nada se parecia com os utilizados hoje. No entanto, o mercado em pouco tempo lançou as câmeras com IP, que podiam ser conectadas aos microcomputadores e produziam imagens em formato digital, descartando assim as antigas unidades de DVR ou mesmo as fitas cassetes, muito utilizadas no século XX como fonte transporte e armazenamento temporário de imagens.

Ainda assim, o velho problema perdurava. Ainda não existiam profissionais qualificados ou com o perfil direcionado para utilização destes equipamentos. Muitos fornecedores, através de seus representantes, aconselhavam os proprietários dos sistemas de vigilância eletrônica, comercial ou residencial, a operarem eles mesmos os equipamentos adquiridos.

Mas, diante da crescente demanda pela segurança pública e do desenvolvimento tecnológico, o primeiro conceito de manuseio e operação do CFTV deu lugar a uma filosofia promissora e inovadora, o atual modelo de vídeo monitoramento. Um nome com uma sonoridade moderna e proposta eficiente, que consistia em utilizar um ou mais usuários com equipamentos do tipo microcomputadores denominados “estação de trabalho”, interligados a outro microcomputador denominado “servidor”, dotado de roteadores, suíters rumber, etc. O sistema foi criado para realizar a leitura das informações digitais obtidas das imagens capturadas a partir das câmeras IP e monitoradas por profissionais atentos ao que se passava nos ambientes filmados.

O operador que passa a fazer parte deste novo conceito devia ter conhecimentos de sistema operacional, na época Windows, e ser alguém que possuísse conhecimentos de segurança. No entanto, contrariando o princípio do vídeo monitoramento, alguns empregadores ainda insistem em escalar seus funcionários mais velhos e mais experientes para assumirem a responsabilidade de monitorar as imagens capturadas pelo novo sistema de segurança adotado. Um erro recorrente que precisa ser corrigido.

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A Fundação e o conceito de vídeo monitoramento urbano

Soares ministra curso de qualificação em vídeo monitoramento

Em 2003, a Fundação Assegura introduziu no contexto da Segurança Pública o atual conceito de vídeo monitoramento em Áreas Urbanas. O 19º Batalhão de Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro foi o primeiro a receber o sistema inovador e eficiente, que contou com a participação de integrantes inativos da Segurança Pública do Estado (Policiais Militares e Civis e Bombeiros Militares). Este grupo se valeu do feeling profissional adquirido no exercício constante da função na área de segurança para aperfeiçoar, em muito, o desempenho desta nova atividade.

Aliada ao elevado senso do dever legal, em curto período de tempo, a equipe se destacou e desenvolveu o atual conceito de Vídeo Monitoramento Urbano, que visa à segurança da população, sem a intervenção brutal em seu cotidiano. Uma atividade discreta, porém muito eficiente. Novas técnicas foram incorporadas e outras criadas, tais como, o método de vídeo patrulhamento, vídeo monitoramento preventivo, vídeo rastreamento de sinistro e muitos outros.

Na busca de mais aprimoramento, a Fundação idealizou o primeiro curso de qualificação e formação de operadores de câmeras IP e de vigilância eletrônica no segmento de vídeo monitoramento urbano. No Estado do Rio de Janeiro, ela foi primeira instituição a formar seus operadores englobando as técnicas necessárias para a execução competente do oficio em áreas urbanas.

O vídeo monitoramento não é apenas uma seqüência de imagens capturadas. Também não pode ser confundido com o Circuito Fechado de Televisão (CFTV), porque é um sistema de vigilância eletrônico desenvolvido para interagir com profissionais qualificados que monitoram as imagens capturadas pelas câmeras digitais interligadas a microcomputadores e seus servidores. Tudo isso com o propósito de atender uma demanda latente e urgente de segurança, seja de no âmbito do interesse público ou privado.

Já é possível encontrar cursos de formação para o Circuito Fechado de Televisão (CFTV) em algumas instituições com ensino superior tecnológico. O problema é que estes cursos são voltados apenas para instalação e manutenção do sistema, as matérias que tratam da operação e orientação de manuseio ficam a cargo do interesse pessoal de cada profissional, o que acaba reforçando a ideia equivocada de  que um sistema moderno pode, por si só, fazer milagres.

O fato é que, enquanto não houver profissionais qualificados, bem preparados e motivados para monitorar de maneira eficiente as imagens capturadas, de nada servirá qualquer tecnologia sofisticada. E, sem dúvida alguma, a utilidade do sistema será convertida em inutilidade e frustração.

RJ, 12/09/2011

Carlos Henrique Soares
coordenador técnico da equipe
de vídeo monitoramento
na Fundação Assegura

 


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